Tim Gallaudet defende “virada internacional” para pesquisa e divulgação de UAP e sugere a Sol Foundation como base de coordenação global

Na fala no simpósio de 2025 da Sol Foundation, o almirante (res.) Tim Gallaudet, PhD, empurra o debate para fora do eixo “Washington resolve” e tenta vender uma ideia bem específica: se a divulgação sobre UAP (Fenômenos Anômalos Não Identificados) não anda nos EUA, o próximo caminho mais promissor é organizar um esforço internacional — com academia, entidades civis, mídia e setor privado — capaz de criar padrões, juntar dados e, com o tempo, pressionar governos.

Ele diz que o cenário global é mais diverso do que parece. Em vez de um único “centro” mandando em tudo, o que existe hoje é um mosaico: alguns países já têm histórico de investigação oficial, outros têm grupos acadêmicos surgindo, e vários têm entidades privadas estruturadas. A oportunidade, na visão dele, é transformar esse mosaico em rede.

Gallaudet cita o Canadá como um exemplo recente e importante, mencionando o relatório “Sky Canada”, que recomenda algo parecido com o que a AARO faz nos EUA: consolidar informações e definir padrões de relatório de ocorrências, para que casos não fiquem espalhados entre órgãos e sem método comum. Na lógica dele, padronização é o primeiro degrau para levar o tema a sério em escala internacional — porque sem um jeito único de registrar “o que aconteceu, onde, quando e com quais dados”, cada país vira uma ilha e ninguém consegue comparar nada.

Na América Latina, ele chama atenção para o fato de que existe tradição de envolvimento estatal em alguns lugares. Ele cita o Brasil e a Operação Prato (uma operação da Força Aérea Brasileira que é frequentemente lembrada como um marco histórico de investigação), e diz que Chile e Argentina teriam estruturas governamentais que recebem relatos e documentam casos. O ponto que ele tenta fixar é: há países onde o tema não depende só de “vazamento” ou “denúncia”, e isso cria possíveis parceiros formais para um esforço mais amplo.

Quando atravessa para a Ásia, ele descreve um “pacote” de iniciativas que, somadas, indicariam crescimento de interesse institucional. Ele fala de uma sociedade de UAP na Coreia ligada a ambiente universitário, comenta iniciativas e pesquisadores em países como Malásia e Indonésia (em formatos diferentes, inclusive eventos), e coloca o Japão como um caso estratégico: segundo ele, o país formou um caucus (grupo parlamentar dedicado ao tema) com figuras políticas de peso, incluindo ex-ministros, e teria buscado conversas para entender “onde os EUA estão” e o que fazer a seguir. Na leitura dele, isso revela algo bem específico: mesmo sem liderança do Executivo americano, outros países observam o movimento do Congresso dos EUA e tentam se posicionar.

No Oriente Médio e entorno, ele descreve um padrão mais “securitário”: países como Irã e Israel tenderiam a tratar UAP como tema de segurança nacional (o que, na prática, significa pouca transparência pública). Ainda assim, ele cita incidentes históricos e declarações públicas de figuras ligadas à segurança espacial em Israel como “pontos de dados” — ou seja, sinais de que o assunto existe ali, mesmo que não venha com abertura documental.

Na Europa, Gallaudet pinta o continente como um dos polos mais ativos em termos de mistura entre academia e grupos civis. Ele menciona projetos e pesquisadores ligados a universidades (por exemplo, nomes associados a instituições no Reino Unido e na Escandinávia) e também grupos privados. O recado é que existe massa crítica para pesquisa séria, mas faltaria uma “coordenação mãe” que conecte padrões, dados e prioridades.

Ele também comenta que África aparece menos nesse panorama, e sugere que isso tem ligação com limitações econômicas e de segurança, mas não seria “zero”: ele cita pesquisadores e casos clássicos documentados no continente como exemplos de que há material e interesse, mesmo que em menor escala.

A virada mais importante do trecho internacional é quando ele propõe que a comunidade pare de esperar uma solução “por decreto” e passe a pensar em estrutura. Ele lista organizações que já têm presença multinacional — como MUFON (Mutual UFO Network, rede civil de pesquisa de relatos), Society for UAP Studies (Sociedade para Estudos de UAP, focada em abordagem mais acadêmica) e outras coalizões internacionais — para mostrar que “o esqueleto” de uma rede global já existe. O debate, então, seria: aproveitar essas estruturas, criar uma nova entidade, ou montar uma camada de coordenação que converse com todas?

E aqui entra a parte mais política: Gallaudet diz que não vê a ONU (Organização das Nações Unidas) como caminho viável. Ele argumenta que o Conselho de Segurança inclui justamente potências que ele descreve como pouco abertas ao tema (EUA, China, Rússia), o que travaria qualquer iniciativa. Em vez disso, ele aponta modelos “técnicos” e consolidados, que funcionam por padrões e cooperação científica, como a IAU (União Astronômica Internacional, entidade global que organiza padrões e colaboração em astronomia) e a COSPAR (Comitê de Pesquisa Espacial, criado no contexto da corrida espacial para coordenar pesquisa internacional). A ideia dele é simples: antes de virar “projeto de governo”, UAP poderia virar “projeto de ciência”, com governança própria, regras claras e participação global.

No fim, ele dá a entender que a Sol Foundation poderia ser o embrião dessa coordenação: já reúne um público internacional, produz white papers (relatórios técnicos com propostas e argumentos) e tenta funcionar como espaço de articulação entre pesquisadores, setor privado e atores públicos. Ele até brinca com a necessidade de “logo e sigla” e sugere um nome-conceito: uma rede internacional para pesquisa, educação e divulgação de UAP — algo que, na prática, serviria para organizar esforços, criar metodologia compartilhada e elevar o nível do debate fora da disputa política imediata dos EUA.

O coração do argumento internacional de Gallaudet é esse: se a transparência estatal é lenta e cheia de barreiras, uma rede global bem organizada pode fazer duas coisas ao mesmo tempo — produzir dados melhores e criar um padrão de legitimidade científica que, com o tempo, force respostas mais claras de governos.

Fontes:

Compartilhar

Relacionadas