No episódio #811 do Psicoactivo Podcast, o apresentador Pavlo sustenta uma tese incômoda: a comunidade UFO/UAP não está dividida principalmente por causa do fenômeno, mas por causa de política. UAP é a sigla em inglês para Unidentified Anomalous Phenomena, ou Fenômenos Anômalos Não Identificados. E “política”, nesse contexto, não significa só opinião diferente. Significa tribalismo, a lógica de torcida em que cada grupo protege sua “verdade” como identidade e trata qualquer discordância como traição.
O episódio começa com um aviso que já entrega o clima. Pavlo diz que falar disso custa inscritos. Ele menciona o amigo Clint Weldon, do Night Shift, que também recebe críticas por tocar em política, e usa isso para mostrar como o debate virou um campo minado. O raciocínio é que a sociedade já está tão polarizada que a ufologia online virou um espelho desse conflito. Tudo passa a ser lido por “lado”, não por evidência.
A partir daí, ele liga a divisão UAP ao ambiente social mais amplo. Discursos sobre imigração, generalizações, violência e medo criam um cenário em que muita gente já não consegue conversar sem escolher um inimigo. Para Pavlo, a comunidade UFO passou a repetir exatamente o mesmo padrão. Não é mais sobre investigar, é sobre vencer narrativa. E quando o objetivo vira vencer, o disclosure, termo usado para divulgação oficial de informações antes tratadas como sigilosas, deixa de avançar porque a comunidade perde a capacidade de agir como bloco, com método e foco.
Dentro dessa leitura, Michael Shellenberger aparece como um exemplo recente do que piora a fratura. Pavlo não o trata como alguém irrelevante. Ele o descreve como alguém que já teve utilidade no tema, mas que ao publicar um conteúdo considerado inflamável e altamente ideológico, ampliou o racha. A crítica central é simples. Quando figuras com grande alcance misturam UAP com guerra cultural do dia, o tema vira bandeira. E bandeira vira briga. Com isso, quem estava ali por curiosidade e responsabilidade se afasta, e sobra o público que quer conflito.
Pavlo também coloca na mesa um efeito prático desse ambiente. O aumento de assédio e a normalização de ataques pessoais. Ele menciona doxxing, termo em inglês para exposição de dados pessoais com intenção de intimidar, e descreve como a discussão se transforma numa patrulha permanente. Se alguém fala algo que encosta em política, dependendo de onde o público coloca essa pessoa, vem ataque coordenado. Ele insiste que isso não é exclusividade de um polo. A lógica de “nós contra eles” funciona em mais de uma direção e se retroalimenta.
Se a política é o combustível, religião e moralismo costumam ser o acelerador. Um exemplo citado com frequência nesse tipo de debate é Tucker Carlson, figura midiática conhecida por enquadrar o tema em molduras religiosas combativas e por transformar relatos em narrativa de choque. Entre as histórias lembradas por críticos, aparece a alegação de ter acordado com marcas no corpo atribuídas a um suposto ataque “não humano”, enquanto detalhes domésticos simples que poderiam oferecer explicações alternativas ficam fora do relato. Isso gera um curto-circuito perfeito. Um grupo toma como “prova espiritual”. Outro usa como justificativa para ridicularizar todo o assunto. E, no meio, morre o que deveria ser central. Checagem, evidência, segurança aérea e transparência institucional.
No sentido oposto, existe um bloqueio institucional que também trava o avanço. O estigma acadêmico. A história da astrônoma Beatriz Villarroel aparece como exemplo porque envolve uma pesquisa séria sobre transientes, eventos de brilho que surgem e somem, em registros antigos do céu, anteriores ao Sputnik. O que chama atenção não é uma conclusão “extraterrestre”, e sim a resistência cultural ao tema. Mesmo quando há método, parte do ambiente científico reage com rejeição automática, como se investigar o anômalo fosse “se queimar”. Isso empurra a discussão para fora do circuito institucional e a deixa mais vulnerável a ruído e caricatura.
Nesse cenário, o debate vira outra dicotomia. Ciência aberta versus “debunking” seletivo. Garry Nolan costuma ser citado como um cientista que tenta tratar o tema com rigor, análise e linguagem acadêmica. Já Mick West simboliza um estilo de debunking, explicações mundanas, que é útil quando é honesto, mas vira problema quando se transforma em filtro rígido. Olhar apenas para o que ajuda a fechar uma hipótese prosaica e descartar rapidamente o que complica. Quando isso acontece, o ceticismo deixa de ser método e vira identidade. Ou seja, vira mais um time.
No Brasil, o mesmo mecanismo aparece quando o tema entra na arena institucional e vira meme antes de virar pauta. A audiência convocada pelo deputado federal Chico Alencar para discutir OVNIs e LAI, Lei de Acesso à Informação, tinha um núcleo objetivo. Transparência, prazos, consistência de respostas e direito do cidadão a documentos. Só que a repercussão foi engolida por deboche e encenação, como o episódio do “papel alumínio”, que desviou atenção do ponto central. Isso funciona como sabotagem perfeita. O tema não precisa ser refutado. Ele só precisa ser ridicularizado até ninguém mais querer tocá-lo.
O caso Varginha encaixa como exemplo de um encerramento conveniente. A hipótese do “Mudinho” foi empurrada como explicação simples para um caso complexo e, em muitas reportagens, tratada como se fosse um ponto final. Só que há uma crítica básica de coerência que não depende de acreditar em ET. Defensores do caso insistem que as testemunhas conheciam a pessoa apontada e contestam a possibilidade de confusão, além de indicarem que ela estaria em outro local naquele momento. Quando essa nuance é ignorada, o público recebe uma conclusão “limpa”, mas o debate fica mais sujo. A sensação de atalho narrativo alimenta ainda mais polarização.
Dentro da ufologia brasileira, existe ainda um tipo de divisão que muita gente reconhece sem precisar apontar nomes. Quem acompanha o tema há anos certamente já viu discussões públicas entre pesquisadores competentes, com experiência real de campo, em que a sensação do público é quase frustrante. Se trabalhassem juntos, poderiam mover o ponteiro de verdade. Mas a conversa escorrega para disputa de narrativa, disputa por crédito e briga de ego. O efeito disso é pesado: uma área pequena se fragmenta em facções, e a energia que deveria ir para checagem, organização e pressão por transparência se perde em conflito interno.
No fundo, o que aparece como linha comum em todos esses pontos é um princípio simples. Caso ufológico não tem dono. Quando alguém tenta monopolizar apuração, controlar narrativa, usar informação como moeda de status ou transformar investigação em feudo, o campo se autossabota. Some-se a isso a falsa dicotomia entre ufologia “científica” e “esotérica”, em que um lado vira escárnio e o outro vira blindagem contra verificação, e o resultado é a comunidade girando em círculos.
O quadro que se desenha, tanto fora quanto dentro da ufologia, é claro: o desacobertamento não é freado apenas por segredos de Estado. Ele é bloqueado também por política transformada em identidade, por disputas de ego, por estigmas acadêmicos, por radicalizações religiosas e por conflitos internos que fragmentam quem deveria estar cooperando. Enquanto esses fatores continuarem ditando o tom do debate, o disclosure seguirá sempre “quase lá”, mas nunca alcançado. Romper esse ciclo exige menos torcida e mais responsabilidade coletiva. Compartilhe esse debate com ufólogos, pesquisadores e entusiastas, e ajude a recolocar o foco onde ele sempre deveria estar: nos fatos, na transparência e na construção conjunta do conhecimento.







