Documentos liberados via FOIA (Freedom of Information Act, a Lei de Acesso à Informação dos Estados Unidos) mostram que o Pentágono realizou, em 6 de março de 2024, um briefing fechado e sob embargo sobre UAP (Fenômenos Anômalos Não Identificados) com um grupo restrito de jornalistas previamente escolhidos. O material veio a público agora, após pedido formal feito pelo site The Black Vault, comandado pelo pesquisador John Greenewald Jr..
O documento central é um e-mail enviado por Susan Gough, porta-voz do Departamento de Defesa dos EUA, convidando alguns veículos específicos para uma “mesa-redonda com mídia convidada”, realizada dentro do Pentágono. O encontro teve como foco o HRRV1, sigla para Historical Record Report Volume 1 (Relatório de Registro Histórico, Volume 1), o primeiro relatório exigido pelo Congresso sobre programas do governo dos EUA ligados a UAPs.
Segundo o convite, o briefing contou com a presença de Tim Phillips, então diretor interino do AARO (All-domain Anomaly Resolution Office, o escritório do Pentágono responsável por investigar UAPs). O evento foi descrito como “on-record e off-camera”, ou seja, com falas oficiais, mas sem gravação em vídeo, e condicionado a um embargo rígido até a divulgação pública do relatório, dois dias depois.
O e-mail deixa claro que a participação só seria permitida mediante concordância explícita com o embargo. Para receber uma cópia antecipada do relatório, os jornalistas precisavam responder literalmente: “I agree to the embargo” (“Eu concordo com o embargo”). Além disso, apenas um representante por veículo poderia participar, e o convite não era transferível sem autorização prévia do Pentágono.
A lista de convidados, revelada no campo BCC do e-mail, inclui nomes ligados a grandes veículos como The New York Times, CNN, Politico, The Washington Post e Task & Purpose. Entre os jornalistas identificados estão Kayla Guo, David Martin, Oren Liebermann, Lara Seligman, Jeff Schogol e Dan Lamothe. Parte dos destinatários, no entanto, aparece tarjada, com base na exceção (b)(6) da FOIA, que protege informações pessoais contra “invasão injustificada de privacidade”.
Esse detalhe é importante porque indica que nem todos os convidados podem ser identificados publicamente, levantando dúvidas sobre quem mais teve acesso antecipado ao conteúdo do relatório. O próprio Departamento de Defesa confirmou, na resposta oficial ao pedido de FOIA, que apenas esse e-mail foi localizado como documento relacionado ao convite, sem registros adicionais.
Embora briefings sob embargo sejam comuns em assuntos sensíveis, o caso chama atenção pelo contexto. O HRRV1 trata justamente da história de décadas de envolvimento do governo dos EUA com UAPs, um tema cercado por críticas sobre falta de transparência e controle excessivo da informação. A opção por um encontro fechado, com imprensa selecionada e regras rígidas, contrasta com o discurso oficial de maior abertura defendido pelo próprio Pentágono e pelo Congresso.
Na prática, os documentos agora públicos mostram como o acesso à informação sobre UAPs continuou cuidadosamente filtrado, mesmo em um momento apresentado como avanço na transparência. O material obtido por FOIA não prova irregularidades, mas expõe com clareza quem foi convidado, sob quais condições e quem ficou de fora, oferecendo um raro olhar de bastidores sobre a gestão da narrativa oficial em torno dos UAPs.
Fontes:
https://www.theblackvault.com/documentarchive/closed-door-2024-uap-briefing-foia-discloses-select-media-invitees/
Documento FOIA nº 24-F-0895 – Department of Defense (EUA)







